Thiago da Costa Oliveira

Rio de Janeiro | Ensaio sobre o concreto

O pedregulho

por Thiago Oliveira.

Câmera: Holga 120 cfn

Publicado originalmente em: http://revistachao.com/2013/08/21/debaixo-da-construcao/

 

Visitei o conjunto Menezes Cortes, ou Pedregulho – ou ainda Minhocão – com uma câmera russa chinesa, feita de plástico – lentes e componentes – de uma engenharia simplérrima, chamada Holga.

Queria aproveitar que não se podia controlar a luz, e nem mesmo o quadro e outras coisas básicas para fazer um ensaio com um olhar menos domesticado sobre um tema tão plástico para a fotografia como este da arquitetura modernista.

Quando você abre mão do controle, e acredita “no acaso”, “no filme”, ou em qualquer coisa deste tipo, nem sempre dá certo. Prova disso é que quando saí do laboratório, com o filme revelado, o laboratorista – ou melhor o Milan, um grande laboratorista, percursor do filme colorido no mercado de publicidade carioca dos anos 1960/1970–, disse que eu estava gastando dinheiro atoa, que as fotos estavam ruins e sub-expostas. Eu ri nervoso, explicando para ele que a câmera não permitia saber exatamente o que eu estava fotografando. Ele me despachou, meio irritado: porque, afinal, alguém usaria uma câmera com a qual não se pode controlar a luz?

Para completar, a película ficou no banco de trás do carro e foi amassada por algum carona. Encontrei-a depois de muito procurar, no chão do veículo. Digitalizei o filme sub-exposto e amassado em tiras com três fotos. O que vemos abaixo é o resultado desta primeira aproximação do Pedregulho e do concreto, por meio da fotografia. Avisei ao pessoal da revista que não teríamos um ensaio, mas poderíamos publicar algo que estivesse em processo. Uma forma boa de contornar uma série de erros e de apostar mais uma vez em alguma coisa que não sabemos onde vai chegar.

 

Fotografias 1,2,3

(click na imagem para ampliar)

 

MODERNISMO-03

 

Nesta primeira série, nos encontramos na parte intermediária do terreno, em um dos conjuntos residenciais – abaixo está a escola e mais acima o “Minhocão”, que é a parte mais conhecida deste conjunto.

Na primeira foto vê-se a fachada dos apartamentos, recebendo a luz do sol da manhã.

Na segunda foto, vemos o Minhocão através de uma cortina de vegetação. Este prédio domina visualmente o conjunto.

Na terceira foto, vemos (não muito bem) a rampa de acesso aos apartamentos do conjunto contíguo a este que nos encontramos.

Não há elevadores. Todo acesso aos apartamentos é feito por escadas. Um casal subia as compras de mercado por uma corda içada do quarto andar. Observando-os trabalhar, começamos a notar as intervenções realizadas pelos moradores na fachada dos apartamentos. A maioria deles fechou a parede de tijolos vazados que serviria para deixar os apartamentos frescos nos verão. Parece que um frio imprevisto no projeto original os impeliu a isso.

O sr. Aloísio, morador do 311, que varria as folhas caídas no chão do estacionamento, explicou que os arquitetos que comandam a reforma pela qual passa todo o conjunto querem desfazer as intervenções feitas pelos moradores ao longo dos mais de 60 anos de história do conjunto. Ninguém gostou da ideia. “que mexam fora, não dentro das casas.”

 

Fotografias  4, 5, 6

(click na imagem para ampliar)

 

MODERNISMO-02

 

Na fotografia 4, eu ainda estava tentando mostrar a passarela. Mas a foto ficou ainda pior, só as árvores refletiam luz suficiente para sensibilizar o filme. O concreto ficou escuro.

É notável que se veja tanto mato ao sair para fotografar uma construção modernista. Isso deve vir da importância dada, nestes projetos, ao paisagismo. Por outro lado, este aspecto não fica evidente naquelas fotografias em que os prédios parecem maquetes de si mesmos.

Assim, visto de perto – e depois de algum tempo de maturação, o concreto – tá no meio do mato.

Na segunda fotografia desta sequência (5) eu tentei fazer uma imagem da velha e abandonada enfermaria (centro de saúde). Esta é aparte mais deteriorada do conjunto Pedregulho. Como não mora ninguém na enfermaria, fizeram uma série de intervenções definitivas, arrancando todos os azulejos, fios, canos e ficou só o concreto e as grades de metal que aparecem na foto seguinte (6) e, mais claramente, na primeira da última sequência (7).

Nesta imagem aconteceu algo curioso: o scanner – desta vez foi ele! – não conseguiu ler direito a informação de cor do filme e produziu umas aberrações em forma de serra dos órgãos – olhando bem dá até para ver o dedo de Deus. O mesmo efeito pode ser visto na fotografia 2 da série anterior.

Na fotografia 6 houve uma dupla exposição do filme. Ainda não entendo o que se juntou a que.

 

Fotografias 7,8,9.

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MODERNISMO-01

 

A fotografia 7 já foi comentada acima. Do ponto de vista estético ela é mais bem sucedida em registrar a enfermaria. Dá para ver as grades, que deveriam protegê-la do exterior e todas as manchas no teto de concreto desta edificação. Acho que liguei o flash embutido na Holga para iluminar o primeiro plano.

Olhando bem dá para ver que é este teto, furado, que se encontra sobreposto a um plano mais distante da enfermaria na foto anterior (6).

Damos um imenso salto ao vermos a imagem seguinte (8). Estávamos fechados pelo mato e pelos prédios e agora divisamos (mal, é verdade) algum panorama. Pra chegar ali, tivemos que contornar a escola e subir até a entrada do “Minhocão”.

Entra-se no prédio todo em obras, com cortinas para proteger os passantes dos escombros da reforma, por uma de suas várias entradas que dá no que os arquitetos idealizadores do prédio chamam de “rua suspensa”. Este é um dos pontos altos do projeto arquitetônico: um longo vão que atravessa de fora a fora o batimento, no qual se encontra também o que restou da ideia de um comércio setorizado para o conjunto. Infelizmente a rua suspensa estava toda tomada por tapumes da obra de reforma, e não se podia vê-la por inteiro. Mas foi possível senti-la. O único comércio em funcionamento, naquele sábado, era uma barbearia, na qual se via uma fotografia da maquete do Pedregulho na parede dos fundos.

Ficamos maravilhados ao subir o morro, entrar no “minhocão”, subir um lance de escadas e de repente nos depararmos com a vista da verdadeira serra dos órgãos, da ponte Rio-Niterói, Linha Vermelha, Galeão e tudo mais que vai nesta direção. A imagem não mostra isso, é verdade. Mostra a quadra e a piscina do colégio em outra dupla-exposição, sobreposta a um detalhe do chão vermelho tijolo do piso em que nos encontrávamos. (mais uma tentativa que não deu certo).

Sempre acho intrigante ver uma piscina esvaziada. Esta piscina em especial, porque vê-la me fez lembrar que as donas de casa, quando se mudaram para o Pedregulho, nos anos 1940-50, não encontraram tanques para lavar as roupas em casa. Dispostas a solucionar este inconveniente, fizeram da piscina o local deste trabalho diário, dispensando o sistema automático de lavagem de roupas idealizado no projeto original para emancipá-las do trabalho doméstico. A história das intervenções no projeto do Pedregulho começa por aí.

A última foto (9) não saiu muito boa. É uma pena. Eu queria mostrar ali as antenas de TV – outra intervenção dos moradores na paisagem modernista. As antenas ficaram torradas pelo sol, confundidas com a parede clara que o conjunto exibe para a paisagem.

***

A arquitetura do Pedregulho, feita originalmente para reeducar os seus futuros moradores, inculcando-lhes hábitos ditos superiores, encontra-se novamente em evidência, já que uma reforma e um projeto de tombamento do conjunto estão em andamento. Os moradores, que reeducaram o prédio, encontram-se, mais uma vez, opostos ao concreto. O que virá?

 

© Thiago Oliveira / Revista Chão